Há uma fase em que tudo o que cozinhamos é maravilhoso.
Os miúdos comem tudo. Pedem mais. E nós, mães, sentimos que estamos a fazer algo certo — a nutrir, a cuidar, a construir aquele imaginário bonito de família à mesa.
E depois, sem aviso, muda. E os mais novos mudam ainda mais cedo. Influenciados pelos “não gosto” que de repente surgem nos crescidos.
O peixe passou a ser “sempre peixe?!”, mesmo que no dia anterior tenha sido carne. A frango ou é peito ou nem lhe tocam… a pernas têm uma carne carne escura e isso, aparentemente, é problema. Passam bem os “picados” (e vale que uso sempre 100% carne!): a lasanha, a bolonhesa, os hambúrgueres. O resto é negociação, drama ou silêncio. E depende muito do grau de fome. Quando aperta “mãe, afinal gosto!”.
Continuo a oferecer tudo. Porque acredito que não devemos criar menus “à carta” para cada um, em não transformar a cozinha num restaurante com três opções. Mas há jantares que acabam com alguém a chorar, com a fome a fazer o trabalho que eu não consigo, ou com um prato intacto e uma cadeira vazia.
E a culpa? A culpa senta-se sempre comigo.
Será que devia ter feito outra coisa? Será que os estou a traumatizar? Será que um dia vão crescer e só comer fast food porque a mãe os obrigava a comer peixe às quartas?
O que percebo, com o tempo e com a formação que tenho, é que os miúdos de hoje são influenciados muito antes de chegarem à nossa mesa. O que os amigos comem, a oferta da escola (se bem que no meu tempo, me fazia fugir do peixe a 7 pés!) e acima de tudo as vontades. Estão a crescer e mais importante que obrigar ou mudar o menu, é continuar a oferecer variedade.
O que também percebo — e isto custa a aceitar — é que a exposição repetida funciona. Não hoje. Não amanhã. Mas o prato que rejeitaram dezassete vezes pode ser o que pedem na décima oitava. Não há garantias, mas há probabilidade.
Então continuo. Sem fazer opções paralelas. Com a consciência de que a minha função não é que comam tudo todos os dias — é que conheçam tudo. Que se sentem à mesa com variedade à frente. Que aprendam que comer não é só prazer imediato, é também descoberta.
E nos dias que correm mal? Respiro. Arrasto a culpa para fora da cozinha. E amanhã é outro jantar.

